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05/5/2009 - 16h40
A erosão do
trabalho
Por Ricardo
Antunes
"A RBEIT, LAVORO , travail, labour, trabajo." Não há nenhum canto do
mundo que não esteja vendo o desmoronar do trabalho. A atividade que
nasceu sob o signo da contradição foi, desde o primeiro momento, um ato
vital, capaz de plasmar a própria produção e a reprodução da vida
humana, de criar cada vez mais bens materiais e simbólicos socialmente
vitais e necessários. Mas trouxe consigo, desde os primórdios, o fardo,
a marca do sofrimento, o traço da servidão, os meandros da sujeição.
Se o trabalho é um ato poiético, o momento da potência e a potência da
criação, ele também encontra suas origens no "tripalium", instrumento de
punição e tortura.
Se, para Weber, o trabalho fora concebido como expressão de uma ética
positiva em sintonia com o nascente mundo da mercadoria e o encanto dos
negócios (negação do ócio), para Marx, ao contrário, o que principiara
como uma atividade vital se converteu em um não valor gerador de outro
valor, o de troca. Daí sua síntese cáustica: se pudessem, todos os
trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!
E a sociedade da mercadoria do século 20 se consolidou como a sociedade
do trabalho. Desde o início, no microcosmo familiar, fomos educados para
o labor. O sem-trabalho era expressão de pária social. Mas a mesma
sociedade que se moldou pela formatação do trabalho se esgotou. Ele se
reduz a cada dia -e de modo avassalador. Enquanto a população mundial
cresce, ele mingua. Complexifica-se, é verdade, em vários setores, como
nas tecnologias da informação e em outras áreas de ponta, e resta
exangue em tantos outros.
Onde cresce avassaladoramente, como no telemarketing, produz um ser
falante quase mudo, repetidor do trabalho prescrito, movido a pequenos
"regalos" ao final de um dia extenuante, cujos minutos e segundos são
contabilizados e controlados. Assim nos encontramos hoje: temos muito
menos empregos para todos os que dele necessitam para sobreviver. Os que
têm emprego trabalham muito, sob o sistema de "metas", "competências",
"qualificações", "empregabilidades" etc. E, depois de cumprirem
direitinho o receituário, vivem a cada dia o risco e a iminência do não
trabalho.
E isso não só nos estratos de base, onde estão os assalariados no chão
da produção. Foi-se o dia em que os gestores, depois do corte, iam para
suas casas com a garantia do trabalho preservado. Eles sabem que o corte
deles se gesta enquanto eles laboram o talhe dos outros. Se vivêssemos
em outro modo de produção e de vida, o tempo de trabalho poderia ser
muito menor e mais afinado com o tempo de vida fora do trabalho, ambos
dotados de sentido e fora dos constrangimentos do capital.
Mas, ao contrário, esses tempos se complementam em outro diapasão, com a
casa se tornando espaço de trabalho adicional, e o tempo de vida fora do
trabalho se vê cada vez mais encolhido e reduzido à esfera do que fazer
para não perder a guerra quando o labor recomeçar no dia seguinte. A
resultante é áspera e se conta na casa dos bilhões: aqueles que têm
emprego trabalham muito, muitos já não mais encontram trabalho e outros
fazem qualquer trabalho para tentar sobreviver com o que sobra da
arquitetura societal da destruição. Em plena crise estrutural e
sistêmica do capital, da Ásia à América Latina, da Europa à África, há
uma nota tristemente confluente: como os assalariados que só dispõem de
seu labor poderão sobreviver neste mundo sem trabalho e sem salário?
Dos EUA à China, de Portugal ao Canadá, da Inglaterra ao Japão, passando
pelos tristes trópicos, novos recordes de desemprego são batidos todos
os dias. Um incomensurável processo de corrosão e erosão se efetiva. Tal
como foi desenvolvido ao longo do curto século 20, o trabalho
tayloriano-fordista sofreu forte retração a partir dos anos 1970. Mas,
com a intensificação desse quadro crítico, adentramos um novo ciclo de
demolição do trabalho em escala global.
As diversas formas de "empreendedorismo", "trabalho voluntário" e
"trabalho atípico" oscilam frequentemente entre a intensificação do
trabalho e sua autoexploração. Dormem sonhando com o novo "self-made man"
e acordam com o pesadelo do desemprego. Empolgam-se pela falácia do
empresário-de-si-mesmo, mas esbarram cada vez mais na ladeira da
precarização.
Em volume assustador, uma massa de homens e mulheres torna-se supérflua,
esparramando-se pelo mundo em busca de um labor que já não mais existe.
Este 1º de Maio nos leva, então, a indagar: qual trabalho queremos para
este tenso século 21 que mal está começando?
RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 56, é professor titular de
sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros
livros, de "Os Sentidos do Trabalho" e "Adeus ao Trabalho?".
10/3/2009 - 19h40
Avante
servidores do MPU (agora sem peso nas costas!!!)
Liberdade, leveza e uma esperança incrivelmente renovada...
Estes
foram os sentimentos mais
comuns nas mentes e corações dos servidores que participaram do
Seminário Nacional sobre o novo PCS do MPU, no momento em que se
despediam do Núcleo Bandeirantes/DF e rumavam de volta pra casa, nos
mais diversos lugares do Brasil.
Não
colegas, os abnegados colegas que tão bem representaram nossa
categoria naqueles dois dias de intenso trabalho, não saíram
iludidos, imaginando que tudo está resolvido e que é apenas uma
questão de tempo para que o Novo PCS, do jeitinho que sonhamos, seja
aprovado. Todos temos consciência que ainda há muito a ser feito,
que, na verdade, estamos dando ainda os primeiros passos de uma
caminhada que promete ser bastante densa e exigente. Porém, a imensa
maioria percebeu que estamos no caminho certo!
Algumas das decisões tomadas por
nossa categoria durante este processo, espelhadas nas respostas
dadas às questões apresentadas pelo relatório do Grupo de Trabalho
do PCS e discutidas durante o seminário justificam o clima favorável
ao final do encontro.
Todas as
decisões já foram divulgadas, você, certamente, já deu ao menos uma
“espiadela” nas propostas, porém talvez não tenha percebido a
importância de algumas delas, para não lhe cansar, leitor, vou, por
hora, falar de apenas uma em especial, posto que pode ser decisiva
na conquista, na aprovação de nossos anseios junto ao Congresso
Nacional. Refiro-me à questão de número 30:
“A que categoria devemos juntar
nossos esforços em busca da valorização? (...)”.
Destaco esta por vários aspectos:
primeiro porque demonstra que nossa categoria tem plena consciência
de que a luta a ser travada não pode partir do princípio do
isolamento, precisamos unir forças a outras categorias, afinal,
vivemos situações cotidianas muito próximas e a Unidade na Luta nos
fortalecerá. Porém, vou ainda mais além, sublinho as categorias
indicadas e, especialmente, o amadurecimento, a clareza estratégica
que essa decisão representa. Não é de hoje que nos vemos às voltas
com um novo PCS, embora esta seja a primeira vez que discutimos
efetivamente nossa CARREIRA. Já fomos ao Congresso Nacional em busca
da aprovação de pelo menos 03 (três) outros PCS, porém, em todos,
carregamos um fardo imenso, fomos tratados como anexo, como apêndice
do Judiciário. Embora, graças a muito esforço de nosso Sindicato, no
PCS anterior, Lei 10.476/2002, tenhamos alcançado uma vitória
significativa ao obter um percentual de GAMPU superior ao da GAJ do
Judiciário, não mais obtivemos o mesmo resultado nas tratativas
posteriores. Salientemos que não se trata de nenhuma “birra” ou
menosprezo em relação aos colegas do Judiciário, companheiros nossos
na luta pelo fortalecimento dos servidores públicos, mas numa
questão de coerência, de justiça, posto que o perfil de nossa
categoria, atividades desenvolvidas, número de servidores e,
conseqüentemente, o impacto orçamentário das conquistas
remuneratórias, estão muito mais próximos de categorias como
servidores da CGU e do TCU do que do Judiciário. Aliás, a atitude de
alguns dirigentes de sindicatos do Judiciário de insistir na
pseudo-representação dos servidores do MPU e, como estratégia
justificativa, pregar a confusão das categorias, tem causado
inúmeros prejuízos, servindo de contra-peso às nossas tentativas de
avanços.
Todavia, mais do que nunca, nossa
categoria demonstrou de forma cabal que não aceita mais esta
situação e que deseja de uma vez por todas caminhar por suas
próprias pernas lado a lado com seus semelhantes e não carregando
nas costas um fardo que lhe é muito maior.
As condições estão postas, estamos
construindo o PCS mais democraticamente elaborado da história do MPU
e estamos convictos de quem devem ser nossos parceiros primordiais,
a quem podemos ser comparados.
Vamos em frente, O SINASEMPU SOMOS
TODOS NÓS, agora sem peso nas costas!!!
Anderson Cláudio de Melo Machado
Diretor Nacional de Mobilização e Formação Sindical
KHAN: DEMOCRACIAS VIVEM RECESSÃO
ECONÔMICA E MORAL
Dr. Muqtedar Khan*
Eu tenho sido, há muitos anos, um forte
defensor da democracia, inspirado primariamente pela minha experiência
com as liberdades norte-americanas. Como muçulmano que fala o que
pensa e faz perguntas críticas, sou rotineiramente ameaçado e ofendido
por aqueles que, incapazes de lidar com minhas idéias e críticas,
tentam me silenciar. A democracia norte-americana me deu proteção e a
oportunidade de viver como Deus quer que os humanos vivam -- como um
ser pensativo, reflexivo e expressivo.
Eu ajudei a formar uma organização para
promover a democracia no mundo islâmico e escrevi livros argumentando
que a democracia é essencial para a governança islâmica. No entanto,
nos últimos anos a democracia decepcionou seus defensores, como eu.
Deixem eu dar alguns exemplos.
Tony Blair, George Bush e Dick Cheney
invadiram um país e causaram morte e destruição mesmo com a oposição
de milhões de seus cidadãos. A invasão do Iraque foi um crime de
guerra grotesco que a democracia não conseguiu evitar. Mais de um
milhão de iraquianos morreram em consequência da guerra.
Hoje, milhares de crianças estariam
vivas, milhares de famílias estariam intactas e não teríamos 250 mil
refugiados espalhados em três continentes se os Estados Unidos e a Grã
Bretanha -- duas democracias -- não tivessem invadido o Iraque. Os
iraquianos sofreram de muitas outras maneiras.
Hoje, graças à nossa "promoção da
democracia" há centenas de mulheres iraquianas forçadas à prostituição
para poder alimentar suas crianças. Com certeza elas foram liberadas.
Agora elas encontram "gente nova" diariamente por 8 dólares por dia!
Leis foram aprovadas na Grã Bretanha e
nos Estados Unidos que fazem da idéia de liberdade uma brincadeira.
Foram adotados discursos que distorcem a própria idéia de moralidade.
Líderes que repetidamente mentiram para seu povo foram repetidamente
reeleitos.
Matando civis às centenas, torturando
gente, sequestrando e corrompendo -- tudo isso se tornou procedimento
normal em democracias. Democracias operam como máfias e agem tão
brutalmente quanto elas.
Hoje em dias os cidadãos de democracias
já não conseguem distinguir entre um criminoso de guerra, um bandido,
um assassino em massa e um estadista. Na Índia, Narendra Modi,
governador de Gujarat, orquestrou o genocídio de minorias em 2002.
A máquina estatal [de Gujarat] trabalhou
com bandidos para matar 2.000 pessoas, destruiu milhares de negócios e
deixou mais de 100 mil sem moradia. Ele foi condenado em todo o mundo
por organizações de defesa dos direitos humanos mas na maior
democracia do mundo ele foi reeleito. Na verdade um hindu-americano,
Sonal Shah, que era próximo de Modi e de seu grupo faz parte da equipe
de transição de Barack Obama.
Aparentemente, as democracias de hoje
não vêem problema com líderes que têm as mãos sujas de sangue. O
declínio moral das democracias é uma consequência direta da guerra
contra o terror. Cidadãos foram informados de que o inimigo é tão
diabólico que qualquer método diabólico pode ser usado. Os terríveis
atos de terror que foram acompanhados, ampliados e dramatizados pela
mídia global parecem ter ferido a sensibilidade global dos cidadãos a
ponto de que eles aceitam qualquer coisa feita por seus governos e
ainda aplaudem.
Esta semana a Terra Santa viu um dos
dias mais mortais de sua história, quando Israel massacrou mais de 200
palestinos em Gaza. Palestinos não experimentavam isso desde 1948
quando gangues terroristas judaicas, a Irgun e a Lehi, massacraram 254
palestinos em uma vila chamada Der Yassin.
Na semana que antecedeu os ataques
retaliatórios de Israel, o Hamas disparou 100 foguetes em Israel sem
matar ninguém mas dando a justificativa necessária para Israel, cujos
foguetes e mísseis mataram mais de 400 e feriram mais de 2.000.
E enquanto escuto as afirmações do
governo Bush, que culpa apenas o Hamas por toda a violência, e o
próprio Messias em férias no Hawaí, fico surpreso com a completa falta
de humanidade de suas respostas. Não há um traço que seja de simpatia,
de arrependimento ou de pesar pelos que morreram. É como se o coração
deles fosse feito de pedra.
Nos Estados Unidos e mesmo em Israel o
terrorismo não apenas ameaça vidas, mas vagarosamente destrói a
humanidade destas nações.
O Hamas atirou alguns foguetes em
Israel; é o que fazem e são quem são -- são uma organização
terrorista.
Israel e os Estados Unidos, no entanto,
são democracias que se preocupam com os direitos humanos. Mas quando
massacram centenas de pessoas e seus cidadãos assistem em silêncio,
sem protestos, nem choque, então alguma coisa está fundamentalmente
errada.
Ainda acredito em democracia. Eu acho
que é um grande sistema de governo. Mas também temo que as democracias
de hoje não estão apenas experimentando uma recessão econômica, mas
uma recessão moral.
Estamos gradualmente aceitando coisas
que até recentemente eram tabus. Ao combater organizações terroristas
reduzimos as exigências morais que julgávamos ser o valor das
democacias. Torturas, sequestros, assassinatos e agora massacres se
tornaram justificáveis; o que virá a seguir?
A não ser que acordemos e mudemos de
rota muito em breve, não haverá diferença entre a democracia e
terrorismo e isso será a vitória final para o terrorismo.
* Dr. Muqtedar Khan é diretor de estudos
islâmicos da Universidade de Delaware e integrante do Institute for
Social Policy and Understanding (Ijtihad.org).
(Fonte: Revista da Al Jazeera)
ASTÚCIAS DA RAZÃO
César Benjamin
O destino de qualquer pensamento hegemônico é
atrair a mediocridade, que
adora o senso comum
É um engano pensar
que o neoliberalismo esteja morrendo. As ideologias não têm porta de
saída. São infinitamente capazes de reinterpretar os fatos e
assimilá-los.
O que mudará é o
lugar desse pensamento na sociedade. Ele havia se tornado arrogante,
reivindicando em economia a condição, epistemologicamente absurda, de
pensamento único.
A idéia de que possa
existir um pensamento único pressupõe que a realidade seja evidente. É
uma contradição em termos: se a realidade fosse evidente, o próprio
pensamento seria desnecessário; viveríamos em um mundo de meras
constatações. A humanidade compreendeu há milênios que objetos,
situações e relações não se deixam conhecer imediatamente. Precisam
ser interpretados. Por lidar com interpretações, o pensamento está
condenado à pluralidade. Nenhuma interpretação esgota o real.
Não existe, pois,
pensamento único. Existe pensamento hegemônico, aquele que se torna
senso comum.
Mas, como diziam
alguns clássicos, a razão é astuta, quer progredir: o destino de
qualquer pensamento hegemônico é atrair a mediocridade, que adora o
senso comum. O esforço intelectual mais vigoroso tende a migrar para o
pólo contra-hegemônico.
Quando uma corrente
ousa reivindicar a condição de pensamento único, é sinal de que sua
hegemonia está chegando ao fim, pois está entregue a ignorantes.
No imaginário
neoliberal, o mercado é o espaço de interação de agentes que não
controlam os processos de troca a ponto de impor os seus fins aos
demais. Ao governo, nessa visão, cabe cuidar apenas de preservar
certas condições que permitam ao mercado operar. Não deve haver futuro
pensado, desejado, concertado. Fora do âmbito das empresas, não deve
haver metas, pois, se a sociedade define metas, torna-se necessário
intervir conscientemente nos processos econômicos. A alocação dos
recursos será ótima se for produzida pelo mercado, simplesmente porque
o mercado produz uma alocação qualquer, desconhecida, imprevisível,
considerada ótima por critérios internos à própria teoria que o
glorifica. Não importa saber se essa alocação ótima produzirá
bem-estar. Esse não é um problema de economia.
Na vida real, o
neoliberalismo só conseguiu produzir menores taxas de crescimento,
maior desigualdade social e crises recorrentes, que culminaram na
grande crise atual. Mesmo assim, repetia que era preciso dobrar a
aposta, pois "o modelo ainda não foi completamente implantado".
Quantas vezes ouvimos falar em reformas de primeira geração, de
segunda geração, de terceira geração?
Compreende-se: sendo
o livre mercado apenas um tipo ideal, incapaz de organizar toda a vida
social, então, por definição, a implantação do modelo neoliberal está
sempre incompleta. Tal discurso se legitima em qualquer circunstância.
Os fracassos também
o fortalecem, pois ele conta com uma fuga para a frente: "Isso e
aquilo estão atrapalhando o mercado". Esse argumento pode ser repetido
até o infinito, pois sempre haverá instituições e práticas que
"atrapalham" o mercado. Como a vida das pessoas não pode ser reduzida
a operações de compra e venda, qualquer sociedade organizada
transcende o mercado, qualquer uma contém e recria importantes
instâncias não-mercantis, apontadas como culpadas.
Mesmo hoje as
evidentes inconsistências do projeto neoliberal levam os seus
defensores a concluir que é preciso preservá-lo, fazendo algumas
correções. A incapacidade de realizar-se é, simultaneamente, uma
fraqueza do modelo, no plano da realidade, e uma fonte de seu vigor,
no plano do discurso.
Mantém-se em ação um
moto-perpétuo. Deixamo-nos conduzir por ele durante alguns anos. Deu
no que deu. Só se sai de uma ideologia por ruptura.
Cesar Benjamin, 53,
editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade
Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de "Bom Combate"
(Contraponto, 2006). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta
coluna.
(Fonte: Folha de São Paulo)
ARTIGO: Eles querem demitir e
precarizar. E muito
Francisco de la Cruz
Há dois projetos de lei em tramitação
no Congresso Nacional, o PL nº4302/1998 e o PLP 248/1998
(curiosamente, ambos de 1998, quando ainda vigia o governo anti-social
de Fernando Henrique Cardoso), cuja finalidade é a continuidade e o
aprofundamento das reformas de cunho neoliberal ansiadas pela elite
econômica nacional em associação com as elites de outros países.
O primeiro projeto citado precariza e
amplia ainda mais o campo do chamado trabalho temporário ao permitir
que contratos dessa modalidade possam ser prorrogados e, tão ruim aos
trabalhadores quanto essa prorrogação, que atividades consideradas
como atividades-fim também possam ser executadas com o uso desse tipo
de trabalho.
E, apesar de certas partes contidas
nesse projeto de lei que parecem querer inibir o uso permanente de
trabalhadores temporários nas atividades-fim, experiências semelhantes
extraídas das relações de trabalho no Brasil e a possibilidade de
prorrogação por tempo superior a 270 dias, a serem acordadas por
sindicatos frágeis ou corrompidos em convenções coletivas, tendem a
estender prazos desses contratos e a precarizar ainda mais as já
precarizadas relações entre capital e trabalho existentes no setor
privado brasileiro.
Já o segundo projeto de lei
apresentado visa permitir a demissão de funcionários públicos
estatutários por insuficiência de desempenho, após estes serem
avaliados como insuficientes quanto ao seu desempenho durante dois
anos consecutivos, ou por três avaliações negativas interpoladas
durante cinco anos. Este projeto de lei atinge fundamentalmente os
funcionários públicos não enquadrados como pertencentes a carreiras
típicas de Estado, pois caso seja aprovado como se encontra, estarão
sujeitos a serem demitidos sem que tenham o direito de submeter-se a
um processo administrativo e, mais grave ainda, sem o direito a
recorrer da decisão (leiam os textos contidos nos links colocados ao
final do texto).
Com esses dois projetos de lei, a elite econômica nacional,
mancomunada com sua correspondente transnacional, pretende extrair o
pouco que se tem distribuído em termos de renda e de riqueza para
parte dos trabalhadores e igualmente para funcionários públicos
estatutários. Depois, apossar-se dessas para si mesma, em um movimento
de concentração de renda e de riqueza sem fim que se observa desde
quando a vertente mais selvagem do capitalismo, a neoliberal,
ressurgiu e passou a dominar a maior parte dos governos do mundo.
É na esteira do processo de diminuição drástica do Estado nas áreas
de previdência social, através de sua privatização parcial ou total,
de restrição dos programas de assistência social a pouquíssimos grupos
de miseráveis e de corte drástico no quadro de funcionários públicos,
além do aviltamento de salários e condições de trabalho dos que
dependem deste para a subsistência, que as elites citadas conseguirão
aumentar ainda mais seus lucros.
O PL 4302/1998 na íntegra:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Projetos/PL/1998/msg344-980319.htm
O PLP 248/1998 na íntegra:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Projetos/Plp/plp248.htm
(Fonte: Correio da Cidadania)
24/10/2008
MPU: um dos melhores cursos
preparatórios para concursos do Brasil
Jorge
Fernandes Queiroz Melo*
Atualmente, ser servidor público passa pelo sonho de grande parcela da
população brasileira. Inúmeros motivos levam as pessoas a seguirem a
carreira no serviço público, dentre eles estão: estabilidade, vocação,
salários, etc. O MPU não é uma exceção, apesar de ser um dos concursos
para agente administrativo mais difíceis do Brasil, continua sendo
objeto de desejo, basta ver o número de inscritos no último concurso,
mesmo não existindo vaga para a maioria dos cargos.
Nos últimos dez anos, milhares de servidores adentraram no quadro do MPU,
compondo parcela expressiva do quadro e juntando força com os colegas
mais antigos, numa mescla de experiência e "sangue-novo" que talvez não
tenha paralelo no serviço público atual. É importante frisar que boa
parte do quadro possui ou está cursando o 3º grau, o que só vem a
agregar qualidade aos serviços.
A carreira no MPU é atraente pelo papel
que desempenha perante a sociedade, ganhando respeito a cada dia e
mostrando ser merecedora de admiração. Alguns até de forma exagerada
enxergam o MPU como uma espécie de salvador da pátria. Parcela
importante do respeito conquistado tem origem nos trabalhos
desenvolvidos com seriedade e compromisso pelos servidores, que
juntamente com os membros ajudam a fazer a instituição que é hoje.
Porém, nem tudo é uma maravilha: folheando o Diário Oficial da União é
possível visualizar o grande número de servidores que deixam os quadros
do MPU. Servidores experientes e qualificados, que vão ajudar a brilhar
os quadros da AGU, Judiciário, Receita Federal, INSS, Ministério do
Trabalho, MPE, etc. Chegou-se ao extremo de ter servidor fazendo
concurso para o mesmo cargo em outro Poder, sabendo que a tabela
salarial é semelhante e que terá que galgar a carreira novamente. O que
estaria acontecendo?
O que os servidores estão buscando em outros órgão chama-se QUALIDADE DE
VIDA, pois o salário não é o único motivo para permanecerem no MPU.O que
deveria ser motivo de orgulho e de mantença para qualquer Administrador
não ocorre no MPU. Os servidores do MPU são tratados de uma forma
incompreensível, onde decisões são tomadas de forma unilateral sem ao
menos ouvir os servidores.
Quando é que a Administração irá entender que os servidores só pensam em
melhorar os serviços prestados e que mesmo existindo divergências nunca
estiveram em lados opostos? Quando é que irão valorizar o quadro humano
existente, capaz de desempenhar com excelência suas funções em qualquer
órgão ou poder?
Fica o alerta aos servidores, é preciso se auto valorizar antes de
pensar em outras pessoas e lutar por melhorias. O aviso é extensivo aos
servidores que pensam em sair MPU e permanecem inertes – enquanto não
forem nomeados em outro concurso são servidores e podem/devem
participar. Da mesma forma, os servidores novatos que não conhecem o
movimento sindical – nenhuma melhoria cai do céu, se hoje o MPU possui
uma carreira atrativa é devido o trabalho dos colegas que batalharam no
passado. O futuro do MPU vai depender da atuação dos colegas agora, no
presente.
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Jorge
Fernandes Queiroz Melo é suplente da diretoria do SINASEMPU
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