ARTIGOS - Eleições 2006

 
     

 

 

4/10/2006

 

 

Segundo Turno das Eleições

Veja, abaixo, o que os principais jornais do País estão publicando sobre o assunto:

 

 

 

Zero a zero
ELIANE CANTANHÊDE - Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Lula teve mais votos, perto de 49%, e tem um aliado e tanto: o governo. Alckmin tem o vento a favor: com mais de 41%, criou a sensação de que tem reais chances de vitória e mobiliza velhos e novos aliados, depois de amargar uma solidão inquietante durante todo o primeiro turno.

Até aqui, Lula usou sua empatia com o eleitorado, reforçou a simbologia de "pai dos pobres" e jogou números ao ar junto com o mantra do "melhor governo do mundo".
E Alckmin consumiu o primeiro turno mostrando como o médico de Pindamonhangaba é bonzinho, certinho e decora tudo direitinho, inclusive as inúmeras -não sem razão- cobranças éticas a seu adversário. Agora, precisa deixar de ser candidato de plástico para virar candidato de carne e osso.

Em resumo: no primeiro turno, a forma; no segundo, o conteúdo. Isso implica debates cara a cara, confronto de propostas e discussão sobre o país. Afinal, o que Lula oferece além dos programas de renda? E o que Alckmin quer além de "um Brasil decente"? Como o país vai deixar de ter o segundo menor crescimento da América Latina?

Além disso, paira uma grave dúvida: os homens do presidente, qualquer que seja esse presidente. Lula perdeu o primeiro escalão do governo, do PT e até das amizades. E ninguém sabe qual é a equipe de Alckmin. Os quadros tucanos vão ter que se dividir entre São Paulo, Minas e Brasília caso Alckmin vença.

Mais cargo do que gente? A bancada de deputados federais do PSDB de São Paulo passou por uma expressiva renovação e tem perfil "alckmista". Mas quem são essas pessoas? Estão aptas a assumir o comando do governo federal?

Segundos turnos são exatamente para responder a essa avalanche de interrogações que sobram do primeiro. Enquanto o básico -dossiês, denúncias e a origem de montanhas de dinheiro -deve varar a eleição e se manter para além de 2007.

 

 

Por que as pesquisas erraram!
GILSON LIMA / Sociólogo, professor universitário - Zero Hora

Existe há muito tempo um grande questionamento no meio científico da sociologia sobre a pretensa "exatidão" das pesquisas quantitativas de opinião. Esses questionamentos se dividem, em geral, em três postulados: 1) o de que qualquer pesquisa de opinião supõe que todo mundo pode ter uma opinião; 2) a suposição de que todas as opiniões têm valor e, pasmem, um igual valor; e 3) o pressuposto de que existe um acordo sobre as questões que estão sendo colocadas; (imposição da problemática).

Durante algum tempo, salvo algumas exceções, as pesquisas eleitorais sobreviveram a essas críticas diante de uma margem de erro relativamente controlada e aceita.

O problema é que a realidade mudou. Nas eleições anteriores, a grande massa de eleitores que decidiam nas últimas semanas ou nos últimos minutos seu voto foi alterando significativamente seu comportamento. Esses eleitores, descomprometidos mais ativamente com o processo eleitoral, deixavam-se influenciar em suas decisões pelos votos em candidatos mais competitivos que as pesquisas de opinião, com suas amostras e seus erros aparentemente calculados, demonstravam na corrida eleitoral e mais particularmente no momento mais próximo da votação. Esses eleitores sofriam também a influência de uma militância ou de atores mais ativos do processo eleitoral (aqueles que tinham fortemente uma opinião).

O desencantamento com a política foi paulatinamente alterando o comportamento desses eleitores. E, particularmente, nestas eleições o desencanto abateu também os tradicionais militantes da política e os atores mais ativos do jogo eleitoral, que se desiludiram com o atual poder de emancipação da política no Brasil.

O que tivemos então? Somado à idéia de que vivemos cada vez mais em sociedades simbólicas, espelhadas pela mimética das imagens, ampliada por sofisticados fenômenos de subjetividades contemporâneas, a grande maioria dos eleitores passou a sofrer o que eu denomino de efeito anestésico nos processos de produção e fabricação da opinião pública. A anestesia suspende as influências dos meios mais visíveis e conscientes do comportamento. Trata-se de um significativo efeito que só poderia ser diagnosticado com sofisticados processos de pesquisas qualitativas de profundidade e de detecção de singularidades e nunca poderiam ser demonstradas pela superficialidade quantitativa das atuais pesquisas de opinião.

 

As opiniões expressas nestes artigos não refletem, necessariamente, as opiniões da Diretoria Executiva Nacional do SINASEMPU.