31/3/2006
- 11h
Anistia ou
esquecimento?
Maria do Rosário*
(Jornal Zero Hora)
O Estado brasileiro tem uma imensa dívida
política com o Brasil. Passados 42 anos do golpe, o terror e as
atrocidades causados pelo regime militar ainda estão presentes nos dias
de hoje, pois o modelo de sociedade vigente segue a cartilha adotada a
partir daquele trágico 1º de abril de 1964. A anistia não apagou da
memória dos brasileiros as lembranças de uma pátria que matou,
torturou, sumiu com pessoas, amordaçou e silenciou uma geração
inteira (1964-1985). Ainda que o Brasil tenha reencontrado o caminho da
democracia, a ditadura deixou marcas irreparáveis na sua história.
As gerações de hoje não conhecem a história recente do Brasil e
nossos jovens não imaginam as monstruosidades cometidas contra aqueles
que ousavam divergir do regime militar. Este é um dos motivos pelo qual
se faz necessário lutar para não deixar que os "anos de
chumbo" sejam esquecidos ou simplesmente anistiados da memória pública
do país. É preciso lembrar e relembrar para que jamais o país permita
episódios semelhantes, ainda que tenhamos consciência de que as
torturas, as execuções sumárias, os desaparecimentos, as violações
dos direitos humanos, ainda aconteçam no Brasil de hoje.
Basta lembrar dos casos mais conhecidos, como o massacre do Carandiru, a
chacina da Candelária, o massacre de Eldorado dos Carajás ou os inúmeros
casos de tortura probatória e punitiva registrados nas delegacias e
penitenciárias de todo o país.
A violência policial, o abuso de poder, a prática de tortura por parte
dos órgãos de segurança e a impunidade tiveram seu auge durante o
regime militar. Não foi à toa que o Brasil, nos anos 60, exportou
know-how de tortura e a triste figura do desaparecido político para as
recém-instaladas ditaduras da América Latina. Infelizmente, a anistia
brasileira também se caracteriza, no contexto latino-americano, por ser
a mais atrasada, a mais retrógrada. Por isso, além de continuar
lutando contra o silêncio daquele período, de lutar pelos direitos
daqueles que foram perseguidos, caçados, assassinados e desaparecidos,
temos agora a obrigação de resgatar a nossa história.
Até hoje os arquivos considerados secretos e confidenciais da ditadura
- Cisa, Cenimar, Ciex, DOI-Codi e SNI - não foram trazidos a público.
Anistia não pode significar esquecimento e nem ser considerada uma
concessão daqueles que cometeram crimes contra a humanidade. O Brasil
precisa entender que a verdadeira anistia deve ser uma oportunidade para
resgatar a história e a justiça.
* Deputada federal (PT-RS), representante no Congresso Nacional da
Comissão dos Mortos e Desaparecido
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