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28/02/2007
Chega
de esperteza! Cansamos de ser otários!
Texto-guia
para reflexão sobre o estado da cidadania no Brasil
Jorge Maranhão (*)
Você ouve os
telejornais, lê os jornais e conversa com os amigos e se sente
desanimado com tantas notícias ruins sobre o nosso país.
Como diz o ditado que
notícia ruim corre solta e notícia boa não é notícia ou não
interessa a ninguém, fica parecendo que a grande maioria dos
brasileiros são desonestos e malandros, não gostam de trabalhar e
querem sempre levar vantagem em tudo.
Mas isso não é
verdade! A grande maioria dos brasileiros é gente trabalhadora,
cumpridora de seus deveres e honesta. Até por que não é lógica a hipótese
de haver mais espertos do que otários, se não, não poderia haver um número
de otários suficiente para tantos espertos. Na verdade, otários são
os que pensam que são espertos. Pois o mais esperto é aquele que se
finge de otário e aguarda a hora em que o esperto acaba vítima de sua
própria esperteza! Como diz o ditado que malandro demais se atrapalha,
o mentiroso tem que ter excelente memória, se não acaba vítima de sua
própria mentira.
Na verdade, o que
temos no Brasil é aqueles que se acham muito espertos que são a
minoria, e aqueles que começam a não querer mais ser tratados como otários
que são a maioria. Por isso o Brasil é aparentemente tão pacífico,
apesar de ser tão injusto! É que a grande maioria não aprova o
recurso à violência social nem à violação legal.
Mas se você quer
mesmo fazer algo para melhorar nosso país, além de ficar reclamando
dele, a primeira coisa a fazer é participar da vida social, fazer a sua
parte, por que um país nada mais é do que um grande coletivo de indivíduos.
Ser cidadão na verdade é participar e fazer parte da vida coletiva do
Brasil, entendendo o que são os direitos e deveres fundamentais,
individuais e coletivos dos cidadãos prescritos no Art. 5º. Para tanto
é fundamental entender o que significa cidadania e o estado nacional,
criado exatamente para nos garantir direitos fundamentais e nos cobrar
deveres.
A discussão sobre a
missão do Estado, suas atribuições e limites talvez seja a mais
antiga discussão da filosofia política, desde que os homens resolveram
viver em sociedade. E todos nós concordamos que não cabe apenas aos
governantes e ao Estado a responsabilidade em diminuir as injustiças
sociais, a pobreza e a proteger os menos favorecidos. Todos nós de
alguma forma participam de alguma organização civil que também luta
pela solidariedade. Particularmente no Brasil, temos uma longa tradição
de iniciativas de mútua-ajuda social, a começar pelas próprias
igrejas, além de orfanatos, asilos, cooperativas, entidades
educacionais, de saúde e associações civis dos mais variados fins e
propósitos. Mas a questão é saber se esta é a melhor forma de
participação do cidadão diante das obrigações do próprio Estado. A
par de compreendermos a função do Estado, também temos de compreender
a função da própria cidadania. E aqui é que começa o problema!
Muita gente bem
intencionada começou a exigir e prometer que bastava ao Estado cumprir
suas funções sociais de redistribuição dos impostos arrecadados dos
mais favorecidos para os menos favorecidos. Sem se perguntar como
exatamente poderíamos garantir que esta ação fosse cumprida. Assim é
que, a custa de impostos cada vez maiores, o Estado brasileiro passou a
ter 65% do seu orçamento de investimento e custeio aplicado nos setores
sociais para cumprir a promessa de universalizar a previdência e a
assistência social, a saúde, o ensino fundamental, médio e superior,
a habitação e o saneamento, deixando apenas 35% para os setores estratégicos
da justiça, da segurança, da defesa e da infraestrutura de energia e
transportes. O resultado foi que a emenda acabou pior do que o soneto e
ao invés de se garantir direitos sociais efetivamente para todos,
acabamos produzindo um Estado perdulário, cada vez mais endividado e
sem crescimento econômico expressivo. Um Estado cativo de financiadores
de sua dívida astronômica e não de produtores, empreendedores e
trabalhadores.
Mesmo no âmbito da
sociedade civil vamos ver que a grande maioria de iniciativas das
organizações não-governamentais são no campo da ação social da
educação, saúde, assistência social, geração de renda e meio
ambiente, concorrendo com a própria ação do Estado e deixando de lado
a ação estratégica de controle social sobre os governos, os orçamentos,
os mandatos, o funcionamento da justiça e a promoção dos direitos da
cidadania que só a sociedade civil pode exercer.
Sem controle dos
cidadãos, o que vemos foi o aumento da ineficiência do Estado, da
corrupção e da perversa inversão de sua missão inicial de ente de
redistribuição de renda para instrumento de concentração de renda,
via as altas taxas de juros pagas para refinanciamento da dívida pública.
Quando sabemos hoje que os chamados direitos sociais dos cidadãos só são
necessariamente garantidos depois de garantidos os direitos econômicos
que, por sua vez, só são de fato garantidos depois de garantidos os
direitos civis e políticos. Ou seja, a cidadania é um conceito mais de
responsabilidade política e civil de todos os atores sociais do que de
responsabilidade social de empresas e responsabilidade fiscal de
governos. Só o bom funcionamento da justiça e da segurança do Estado
para os cidadãos titulares de plenos direitos civis é que pode
garantir a qualidade da boa representação dos direitos políticos que,
por sua vez, poderão garantir uma justa ordem econômica e tributária
que, por sua vez, poderão garantir todos os demais direitos sociais.
Qualquer promessa diferente dessa é demagogia e não democracia!
No entanto, são as
instituições políticas e judiciárias justamente as que menos têm
merecido crédito por parte da opinião pública brasileira. Como se não
pudéssemos mudá-las, fossem intocáveis e não tivéssemos nada a ver
com este desígnio dos deuses. Que os menos favorecidos vejam nos políticos
os propiciadores da salvação e a justiça de Deus como substituta da
falha justiça dos homens, tudo bem. Mas se os mais favorecidos pensam
dessa maneira, das duas uma: ou são ingênuos e ignorantes ou
simplesmente grandes espertalhões se aproveitando da maioria de
omissos.
Quando todos
sabemos que o Estado só será social e economicamente forte se for jurídica
e politicamente bem organizado, soberano e digno de seus cidadãos. Com
a mesma qualidade de quadros na sua representação política e jurídica
quanto a própria sociedade civil tem na sua representação científica,
artística, empresarial e profissional.
Todo
o cidadão eleitor e contribuinte tem o dever de participar da construção
desse Estado justo, tem o dever de exercer o controle social sobre os orçamentos
públicos e os mandatos políticos. Antes de ser socialmente responsável,
tem de ser civil e politicamente responsável. Pois a verdadeira inclusão
social de um povo só começa com a inclusão política de suas elites.
A
superação de nossa crise social não é econômica ou fiscal, mas sim
a superação de nossa miséria cultural, a superação do impasse entre
a crise de valores do setor privado e a crise gerencial do setor público.
Pois mesmo a cobrança de responsabilidade fiscal de governos em
contraponto à cobrança de responsabilidade social de empresas é mais
um falso dilema da irresponsabilidade política de todos nós e
sobretudo dos mais favorecidos.
Se
num primeiro momento, cidadania pode parecer satisfação de direitos
sociais, assistencialismo, solidariedade revestida de filantropia e
moral religiosa, entre elites e excluídos, isso é pouco e tem se
demonstrado históricamente insuficiente para nos resgatar de progresso,
ordem e justiça.
Se num segundo momento, cidadania pode parecer expressão de direitos
civis, ética profissional, boa conduta social, civilidade, urbanidade
entre iguais, isso é pouco também. O fato é que chegou o momento histórico
de encararmos a cidadania como iniciativa coletiva da sociedade, como
expressão de direitos políticos, controle social de mandatos, governos
e orçamentos, fiscalização da justiça e da segurança, entre cidadãos
autônomos e governantes de boa fé.
Ou
seja, temos de mudar o paradigma de nossa miséria cultural que, antes
de ser econômica e social, é verdadeiramente jurídica e política,
pelo paradigma da cultura de cidadania, usando para isso e
intensivamente uma das áreas de maior excelência de nossa expressão
cultural que é a artística e de entretenimento, tanto nos espaços públicos
das cidades quanto nos espaços da opinião pública da mídia.
Se temos deficiências em nosso sistema educacional, que é o
sistema próprio para a reprodução de conhecimento, podemos supri-las
com o nosso natural talento cultural para o entretenimento na mídia,
enquanto sistema de reprodução de valores.
Precisamos
apenas nos dispor a uma ação menos individualista e mais coletiva.
Como na célebre argumentação do técnico Felipão explicando por que
não convocava Romário para a seleção do penta: o excepcional talento
individual dele pode não agregar estímulo e somar esforço aos ótimos
talentos do conjunto da equipe. É o sinal de que muitas vezes o ideal
é inimigo do possível. Nossa dependência de Dom Sebastião, do
salvador da pátria, do herói messiânico, nos priva a todos de
pequenas iniciativas coletivas do dia a dia. Nossa baixa auto-estima nos
leva a achar que a pequena iniciativa de muitos não vale o golpe de
mestre ou a grande tacada de um ferra-brás.
Mesmo
nos símbolos nacionais soam ambíguos determinados valores a nós
destinados. Resta mal contada a história da exclusão do amor ou da
justiça do lema nacional da ordem e do progresso. Como a condenação
à orfandade ou à omissão da figura do pai, cuja função é
justamente a de nos forjar a consciência de direitos e deveres, se
torna patente no emblemático hino-destino brasileiro!
Mesmo um nobel de
economia, como o americano Douglas North, já nos disse que os países
que mais prosperam são justamente aqueles que têm instituições políticas
sólidas, uma administração pública estável e uma justiça rápida,
eficiente e de regras claras. E o Estado brasileiro não é injusto
apenas para com os cidadãos socialmente excluídos e pequenos pagadores
de impostos, mas também é injusto para com os cidadãos mais
favorecidos e grandes pagadores de impostos. Porque pagam para ter
segurança e não têm, a menos que contratem segurança privada. Pagam
para ter educação para seus filhos e não têm, a menos que contratem
educação privada. Pagam para ter garantia de saúde e previdência e não
têm, a menos que contratem saúde e previdência privadas. No entanto,
diante do noticiário escandaloso de corrupção e desperdício de
dinheiro público, todos continuamos pagando impostos, nos omitindo
politicamente dos governos e financiando a incompetência.
E
o que fizeram outras nações que, partindo do mesmo estágio de
desenvolvimento que a nossa na era colonial, como os Estados Unidos, são
hoje uma potência? Ou mesmo países como China, Chile, Rússia e Índia
que no século passado eram menos desenvolvidos que o Brasil e hoje já
nos superam? Só para ficar nos Estados Unidos, cujas mercadorias
gostamos tanto de importar, mas que os bens simbólicos da cidadania não
damos a menor relevância, a diferença se deu exatamente no campo da
cultura das elites governantes. Um país que inscreve no frontispício
da Suprema Corte que a boa administração da justiça é o pilar mais
firme de um bom governo, tinha uma exata noção de que “o crime não
compensa”, como foi o grande investimento de mídia feito justamente
na crise dos anos vinte por uma força-tarefa de alguns governantes,
empresários e profissionais de mídia e de produção da cultura
norte-americana.
A própria noção
de crime, no imaginário popular do Brasil, se limita ao crime contra a
pessoa e a propriedade privada e não contra o coletivo ou o patrimônio
público. Enquanto os chamados delitos privados forem “incentivados”
no dia-a-dia pela omissão política das elites e os grandes crimes públicos
espetacularizados na mídia, teremos pouca consciência de cidadania.
É urgente
acrescentarmos ao disque-denúncia o clique-cidadão! Assumindo mesmo
antes dos preceitos dos direitos sociais (art. 6º), os direitos civis e
políticos (art. 5º) que, não por acaso, são priorizados no próprio
texto constitucional. Assim temos de assumir o mais importante preceito
civil de uma plena cidadania: “o fato de não termos o direito
de meter o bedelho na vida privada do próximo não significa que não
tenhamos o dever de constrangê-lo
quando este abusa de seu direito privado em detrimento dos direitos
civis coletivos e do bem comum.”
Assim
como o preceito político: “sobretudo
se abrimos mão do direito e dispensamos os serviços públicos
da educação, saúde, previdência e segurança, não significa que não
temos o dever de participar do controle da administração pública,
dos mandatos e dos orçamentos, como única forma de não compactuar com
ilegalidades, de promover a paz que interessa a todos e legarmos um país
menos impune, injusto e violento para nossos filhos.”
E para detalhar
estes preceitos indicamos três ferramentas: os dez mandamentos do cidadão
consciente, os dez compromissos do cidadão atuante e o contrato do
mandato-cidadão para a defesa do eleitor.
Quando você começar
a assumir uma conduta exemplar de cidadania, que não se limita à sua
particular boa conduta de cumprir com os seus deveres, mas sobretudo a
de docemente constranger o outro a agir da mesma forma, com total
respeito aos direitos civis coletivos e às leis, você vai perceber que
está na verdade mudando o país, transformando toda uma cultura política,
rompendo com velhos paradigmas de valores de nossa herança histórica,
e participando enfim de uma grande maioria de brasileiros que de otários
na verdade não têm nada!
(*)
Mestre em filosofia pela UFRJ, publicitário, consultor, editor do site
e dos boletins do da Voz do Cidadão na rede CBN. jorge@professa.com.br
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