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18/12/2006

 

Situação ideal...

 

Por Júlio Édison Rico Torres - Diretor de Comunicação e Imprensa do SINASEMPU

 

O dia amanhecera ensolarado... O sabiá, desde cedo, trinava com insistência além da  habitual, como se a comemorar algo alvissareiro, auspicioso...

De um salto seguiu para o banho e, imitando a postura do “amigo”, começou a assobiar, apenas que sem a qualidade do inspirador...

As coisas do dia-a-dia vieram-lhe à mente. Verificar a agenda, ligar para esse para aquele...

Mas, de repente, a rotina deu lugar  à uma sensação agradável, nova,  que, tal qual o trinar do canto do sabiá, de forma insistente passou a palpitar alegremente dentro de seu peito, substituindo o sentimento antagônico que ali se instalara, há algum tempo.

O sorriso aflorou em seus lábios e os olhos brilharam; sentiu isso; sem a necessidade de ver seu rosto através do espelho.  Finalmente, naquele dia teria algo de muito importante a  comemorar... A categoria havia  sido contemplada com um tratamento justo, digno e alcançara a devida valorização, que  se apresentava de forma clara e incontestável pelo texto finalmente sancionado!

É que a Administração, de forma coerente com o comportamento  de todo aquele que é justo, que não apenas se diz ser, mas age como tal, empenhara-se para que o novo Plano de Cargos e Salários fosse aprovado!

Esse novo PCS,  como não poderia ser diferente,  fora elaborado mediante um trabalho cuidadoso, resultado da atuação conjunta da administração e da categoria,  representada por seu Sindicato, o SINASEMPU.  A tramitação no Congresso Nacional, como de resto sói ocorrer em tão digna “Casa do povo”, sabidamente integrada somente por seus leais e dignos representantes,  ocorrera de forma a observar, piamente, o processo legislativo regular, próprio da mais genuína e lídima democracia. Tudo em conformidade com a “maneira  republicana de legislar”, com a observância da ética e da moral, aliás, histórica e exemplarmente observada pela classe política brasileira!

Agora, não cansava de pensar: ele e seus pares teriam não apenas uma boa remuneração, mas, também, o resgate do reconhecimento de seu valor, de sua qualificação profissional. Passariam a ter maior acesso aos cargos comissionados, às funções de confiança... A “prata da casa”  conquistara, por meio dessa via, com justiça e meritoriamente, o espaço que, até então,  dividira com desvantagem com os “pára-quedistas”. O nepotismo e o “cabide de empregos” haviam sido subjugados pelo mérito, límpido e cristalino da aprovação em difícil concurso público, consoante a forma disposta na Constituição Federal.  Aleluia, aleluia!

De repente, o trinar até então insistente do sabiá, e o palpitar de alegria em seu peito deram lugar a um silêncio ensurdecedor e a um vazio infinito... Um calafrio percorreu sua espinha e a tristeza, preenchendo tal vazio, tomou o lugar da alegria que palpitara em seu peito.

A realidade tomou o lugar dos seus devaneios: “Caiu na real”... O “erro material” retornara, lépido e fagueiro, como num terrível pesadelo... O sol, constrangido, deu, lugar à uma triste, tenebrosa e sufocante neblina...

O sabiá? Não trinava mais... Restou-lhe, então, como prêmio de consolo , sem direito a devolução, o direito/dever  a ouvir, distante, os acordes de uma marcha fúnebre...numa perversa imposição de participar, na condição de “beneficiário”, da celebração macabra da supremacia do mal sobre o bem...

Mas, reagindo, cônscio de seu valor, não se deixando levar pela tentadora resignação e conformismo, estufou o peito, arqueou suas sobrancelhas e, como se estivesse diante de uma platéia repleta a assisti-lo, bradou:  “Prossigamos na luta, companheiros! Não está morto quem peleia!”.

E  começou a entoar, de forma segura, com a voz firme, forte  e afinada, como jamais o fizera antes, o “hino” de Vandré: “Caminhando e cantando e ouvindo a canção...  Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...”