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06/06/2007
A luz crua
Há três espécies de amizade: a da
virtude, a do prazer e a da utilidade. É o que reputa Aristóteles, em
sua Ética, e logo esclarece: a primeira é a legítima e compreende as
outras duas, que isoladamente costumam ser acidentais. Acrescenta que o
amigo é capaz de amar a si mesmo, no estrito sentido de cultivar o que
há de melhor e mais perfeito em sua própria personalidade. Mais ou
menos o que pensa Cícero, em seu tratado sobre a amizade: ela só
prospera entre homens bons.
Francis Bacon escreveu um pequeno ensaio afim e lamenta que, nas grandes
cidades, possíveis amigos estejam dispersos, o que favorece, digo eu,
as amizades acidentais de que fala Aristóteles e que vêm a ser, ao fim
e ao cabo, outros rostos da solidão. Ou sentimentos afetados, como
vocifera Schopenhauer, que nos Aforismos para a sabedoria da vida lhes dá
menos valor do que aos abanos do rabo de um cão.
Bacon faz o elogio da amizade neste belo excerto:
Vós podeis usar salsaparrilha para tratar o fígado, bisturis de aço
para abrir a vesícula biliar, flor de enxofre para os pulmões, castóreo
para o cérebro. Mas não há receita que se possa aplicar ao coração
a não ser um verdadeiro amigo, com o qual possais partilhar pesares,
alegrias, temores, esperanças, suspeições, conselhos, e tudo quanto
pese sobre o vosso coração e o oprima.
Essa afeição entre bons companheiros, ele garante, "redobra as
alegrias e corta os pesares, dividindo-os em dois". O amigo não
contribui tão-só com o conselho, mas sobretudo ouvindo, pois aquele
que tem a mente confusa precisa ser claro ao traduzir as dificuldades de
que padece, e ao enunciá-las "sob a roupagem das palavras" há
de tornar-se mais sábio do que era, algo que, modernamente,
relaciona-se com a psicanálise, e na antigüidade com aquilo que Temístocles
teria declarado ao rei da Pérsia: falando, as imagens são distintas,
no pensamento estão amontoadas.
Tão preciso quanto o grego, o inglês adverte que a amizade nem sempre
é prazerosa. Requer do amigo a franqueza, embora possa ser corrosiva.
Como no enigma de Heráclito: "A luz crua sempre é a melhor".
Para Bacon, então, um dos atributos cardeais do amigo é a lealdade.
Também acho.
E como é rara.
Sergio Faraco
Jornal Zero Hora
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