Artigo

5/1/2006 - 11h

O cupim da República

MAURI ADRIANO PANITZ / Professor, engenheiro civil e funcionário público concursado e aposentado (Jornal Zero Hora)

Freqüentemente, na condição de professor, quando interpelado por alunos e colegas sobre política, sempre recomendava que ninguém se omitisse e que todos deveriam participar de alguma forma da política nacional, regional ou municipal, independentemente das tendências ideológicas de cada um. Muitos justificavam seus receios de participação em razão do ambiente de corrupção que nela permeia. Meu contraponto era de que não deveríamos nos afastar dela em razão dos seus aspectos negativos, mas ao contrário, deixar-nos atrair pelos seus aspectos positivos e por ser a política um campo que possibilita grandes feitos sociais.

Sempre explicava a política com uma metáfora, comparando-a com a diversidade de uma floresta, cujo valor é incontestável para a vida do planeta e da própria humanidade, apesar dos animais peçonhentos que nela vivem. Também comparava o período político de um governo, independentemente de partido, com a navegação entre portos distantes, cujo navio teve seus porões invadidos no porto de partida por pragas, capazes de corromper a carga valiosa que transportava: a governabilidade, a prestação de serviços públicos e estratégicos, a ordem e o desenvolvimento econômico e social.

Nessa metáfora, os serviços públicos, especialmente os das empresas estatais, eram representados pela serventia do porão do navio, e as pragas que o infestam e corrompem sua carga, comparadas aos maus serviços públicos prestados por servidores públicos, mal administrados por dirigentes indicados pelo partido governante e aliados do governo, ocupantes de cargos em comissão (CCs), também conhecidos por cargos com comissões (CCCs), embarcados no início de cada viagem.

Certa ocasião, Ulysses Guimarães fez o seguinte comentário: a corrupção é o cupim da República. Esta, quase sempre, tem como vertente as indicações políticas de pára-quedistas no serviço público, isto é, de indivíduos despreparados para a carreira pública e que, a raríssimas exceções, jamais ocupariam tais cargos se tivessem que passar por uma prova de seleção por concurso público. As CPIs do congresso têm demonstrado, de forma cabal, a presença desses tipos aventureiros em todos os níveis de governo. São como "caçadores da arca perdida", que buscam o poder e a fortuna a qualquer custo. Os políticos, ao invés de criar empregos e abrir concursos públicos para melhor atender a sociedade, criam CCs para beneficiar amigos, parentes e militantes partidários.

Nos países onde a ética política é mais desenvolvida, os governantes não levam mais do que meia dúzia de assessores de confiança, ao assumirem seus cargos. Aqui em nosso país, dezenas de milhares de CCs, tal qual uma praga de roedores, infestam a administração pública. O povo brasileiro não merece que a corrupção transite livremente nas atividades republicanas. As soluções, para acabar com essas pragas nos porões da Nave Brasil, são as seguintes: a primeira seria afundar o navio, o que seria desastroso para a carga; a segunda seria proibi-los de entrar nos porões, aproveitando a anunciada reforma política, que incluiria emenda com a última recomendação. Se nenhuma solução for adotada, não restará alternativa senão a de chamar o especialista em pragas, o flautista de Hamelin.