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1º/02/2007
Assédio
moral. Quem é o verdadeiro inimigo?
Dra. Elizabeth Zamerul*
Estudos recentes mostram que em cerca de 90% dos casos de assédio moral
o chefe é o agressor. A desigualdade de poder vista por toda parte
influencia fortemente os comportamentos individuais na nossa sociedade e
se manifesta através de inúmeros jogos de poder nas relações. Destes
jogos, o da vítima e o vilão é o mais básico.
Cada pessoa escolhe
um destes papéis, mesmo que inconscientemente, de acordo com a sua tendência
de personalidade e condicionamentos culturais.
Embora os indivíduos caminhem no sentido de descobrir seu poder de ação
para a auto-realização em várias áreas, incluindo a profissional, no
seu relacionamento com a autoridade, esta evolução ainda é lenta. Uma
boa parte ainda não consegue resolver os conflitos que surgem e, por
isto, se submete ao chefe, aceitando a dominação e, às vezes, a
hostilidade. Desta forma, o assediado contribui para que não haja
conseqüências para o superior hostil e assim, a tortura psicológica
cresce a cada dia.
E o chefe, qual é o seu contexto? A percepção dele, nas últimas décadas,
é de perda de poder, autonomia e prestígio, o que fere seu orgulho. Além
disto, o aumento das pressões, responsabilidades e da enorme
competitividade, inclusive com as mulheres, gera perda de espaço
profissional e conseqüentemente, muitos sonhos de realização
profissional e material frustrados.
Para alguns, o relacionamento com algum subordinado mais passivo (na
maioria dos casos, uma mulher) se mostra como a brecha, isto é, o espaço
onde ele, consciente ou não, tem a possibilidade de compensar estas
perdas, sentindo-se novamente poderoso. Seu passaporte para este poder
pode ser o papel do vilão.
Nesta relação doentia, o crescimento da hostilidade é insidioso e crônico.
Com o tempo, o chefe se torna dependente deste prazer fácil e quer
mais. Enquanto o subordinado humilhado, ao viver esta violência
cotidiana, perde, cada vez mais, a auto-estima e a autoconfiança e, com
isto, a sua capacidade de agir para resolver o problema, o que explica o
seu agravamento.
Mas, afinal, quem é o inimigo deste subordinado que sofre o assédio
moral? Muitos responderiam que é o chefe. É dele que este funcionário
precisaria se livrar. Estes se enganam e as estatísticas mostram que,
se ele simplesmente mudar de área ou de emprego, tenderá a encontrar
outro vilão no seu caminho, o que é compreensível, pois está
condicionado a funcionar de forma passiva, como vítima.
Então, seu inimigo não é o chefe. Outros diriam que o inimigo do assédio
moral é o medo. É verdade que este subordinado vive intensamente o
medo da perda do emprego ou da posição, mas, como qualquer outra emoção
humana desagradável, ele é natural e existe como um desafio a ser
vencido. Seu inimigo real constitui-se de várias crenças que ele
carrega; por exemplo, da sua fragilidade, da falta de merecimento do
melhor, da falta de poder diante da situação, da sua visão de que não
tem escolha e outras idéias restritivas que lhe fecham as portas para
as soluções.
É
por tudo isto que se pode afirmar que a solução está em
fortalecer-se, em corrigir suas crenças a fim de perceber seu poder,
sair do papel da vítima e treinar o do protagonista. E o que é isto?
Segundo Rui Mesquita, “Protagonismo é a concepção da pessoa como
fonte de compromissos, que é a responsabilidade; como fonte de
liberdade, que é opção e como fonte de iniciativa, que é ação.
Desta forma, a pessoa aprende fazendo, ocupando uma posição de
centralidade no processo e é indutora de mudanças”. Protagonista é
um papel que se escolhe e se desenvolve e isto não é natural e só o
assediado pode ajudar-se, treinando esta postura de força verdadeira
para vencer seu medo. Além disto, ele pode buscar ajuda, ler e discutir
sobre o seu problema com quem entende; enfim, ampliar a sua visão deste
distúrbio, das relações e de si mesmo, encontrando, assim, seus
verdadeiros recursos para solucionar o assédio moral e realizar-se
profissionalmente.
Zamerul, Elizabeth: Sócia/presidente da Realize - desenvolvendo
inteligências e autora do livro Corações poderosos – uma visão
positiva das emoções no trabalho.
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